| MECANISMOS
PSICONEUROENDÓCRINOS QUE REGULAM O SISTEMA IMUNE DURANTE O ENVELHECIMENTO
SAUDÁVEL Clarice
Luz a , Fabiana N. Dornelles a**, Diego Collaziol a**, Thales Preissler
a**,
b Instituto de Geriatria e Gerontologia, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS
Bióloga, aluna de doutorado
do Programa de Pós-Graduação em Gerontologia Biomédica
(PUCRS). |
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RESUMO
Objetivos: Avaliar as interações das variáveis psiconeuroendócrinas
na regulação da função das células
T durante o envelhecimento saudável.
Resultados: Os idosos apresentaram-se mais estressados, ansiosos e deprimidos
que os jovens. Paralelamente, os idosos apresentaram níveis aumentados
de cortisol. Os linfócitos dos idosos apresentaram-se mais resistentes
ao tratamento in vitro com dexametasona (p = 0,006) em relação
ao grupo de jovens. Além disso, linfócitos de idosos estressados
eram mais sensíveis ao tratamento com DEX do que idosos não
estressados. UNITERMOS:
linfócitos, proliferação, glicocorticóides,
estresse psicológico,
Objectives: To evaluate the psychoneuroendocrine interactions involved
with the regulation of T-cell function during healthy aging.
Results: The elders were more stressed, anxious and depressed than young
subjects. Similarly, the elders had increased cortisol levels. Lymphocytes
from elders were more resistant to DEX treatment in vitro (p = 0.006).
Furthermore, lymphocytes from stressed elders were more sensitive to DEX
treatment than non stressed elders. KEY
WORDS: lymphocyte, proliferation, glucocorticoids, psychological stress
O envelhecimento está associado com alterações em
diversos sistemas, inclusive no sistema imune. Estas alterações
incluem disfunções na resposta imune humoral, processamento
de antígenos e respostas celulares (1). Embora existam resultados
controversos na literatura, várias evidências indicam uma
redução na resposta imune celular – em particular
uma disfunção dos linfócitos T. As conseqüências
clínicas da disfunção imunológica incluem
suscetibilidade aumentada para doenças infecciosas, neoplasias
e doenças auto-imunes. O estresse psicológico, através da ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), eleva intensamente os níveis de glicocorticóides que alteram o sistema imunológico. Durante o estresse, os glicocorticóides podem suprimir vários componentes celulares do sistema imune (4) e, dessa maneira, aumentando a morbidade e mortalidade de populações cronicamente estressadas. Isso é particularmente importante para o idoso que apresenta uma maior vulnerabilidade às infecções como conseqüência da imunossenescência. Esse aumento de susceptibilidade às doenças não está distribuído homogeneamente nas populações e, dessa forma, devem receber influências de outros fatores imunomodulatórios, tais como, fatores psicológicos e neuroendócrinos. De fato, estudos anteriores demonstraram que idosos sob estresse crônico (i.e. cônjuges de pacientes com Alzheimer) exibem uma importante redução da proliferação de linfócitos T in vitro (5) e fraca resposta à vacinação por influenza (6). Logo, fatores psicológicos devem ser considerados como fatores de risco importantes para o imunossenescência. Essas alterações foram associadas a um aumento dos níveis de cortisol salivar, sugerindo que alterações neuroendócrinos no envelhecimento estão associadas a uma disfunção na ativação do eixo HPA (3). Entretanto, nenhum estudo investigou o papel das variáveis psiconeuroendócrinas na regulação da resposta imune de idosos saudáveis. Logo, o entendimento das interações entre o sistema imune, endócrino e nervoso, bem como a contribuição das mesmas na imunossenescência é de grande relevância. Com base nestas considerações, os objetivos deste estudo são: i) investigar se o envelhecimento saudável está associado a alterações psicológicas e endócrinas; ii) avaliar a proliferação de linfócitos induzida por mitógenos, iii) a sensibilidade linfócitos a glicocorticóides in vitro; e iv) analisar o impacto do estado emocional sobre a proliferação linfocitária e sensibilidade a glicocorticóides.
Sujeitos Estudo de coorte prospectivo, onde foram incluídos 46 idosos saudáveis (31 mulheres, 15 homens), não institucionalizados, com idades entre 65 a 91 anos. Os idosos foram recrutados a partir de um banco de dados existente de 1118 idosos socialmente ativos que participaram previamente em pesquisas no Instituto de Geriatria e Gerontologia (PUCRS). Todos os indivíduos eram registrados na Central de Serviço Social de Gravataí (RS) e que participavam do Programa GÊNESE para o estudo nas interações genético-ambientais no envelhecimento de humano. Trinta três adultos jovens saudáveis (18 mulheres, 15 homens), idade entre 20 e 40 anos, também fizeram parte do estudo. O termo de consentimento informado foi obtido de todos os participantes do estudo e o estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da PUCRS. Todos os indivíduos desse estudo foram admitidos de acordo com o protocolo SENIEUR (adaptado da European Community’s Concerted Action Programme on Aging) que define critérios rigorosos de saúde para estudos imunogerontológicos, permitindo a análise do processo de envelhecimento isoladamente (7). Os critérios de exclusão incluem a presença de várias doenças ou uso de medicamentos que podiam influenciar o sistema imune. Variáveis psicológicas Os escores psicológicos foram levantados através de entrevistas estruturadas e instrumentos psicométricos validados para depressão (Escala de Depressão Geriátrica de (8) com ponto de corte (>5) para a presença de sintomas de depressivos (9), para ansiedade (Escala de Ansiedade de Hamilton) com ponto de corte (>20) a presença de ansiedade Hamilton, 1967 e para a presença e levantamento de sintomas de estresse foi utilizado o "Inventário de Sintomas de Estresse para Adultos" (ISSL) (10). O ISSL está composto de quatro estágios que correspondem às seguintes fases de estresse: alarme, resistência, quase exaustão e exaustão. Os sintomas listados na escala são específicos para cada fase do estresse. A contagem foi realizada através de três fases diferentes relacionadas ao tempo de duração (Q1 = últimas 24h, Q2 = última semana e Q3 = último mês) e a intensidade dos sintomas de estresse. A soma de todos sintomas físicos e psicológicos dentro de cada fase resultada em um escore. A presença de estresse está relacionada com escores superiores aos específicos de cada fase que são: Q1 > 6 ou Q2 > 3 ou Q3 > 8. Os coeficientes confiança para todos os instrumentos eram utilizados eram superiores a 0.90. Coleta e análises de cortisol salivar O cortisol salivar foi mensurado como um marcador biológico da atividade do eixo HPA. A análise hormonal salivar constitui um método não invasivo e livre de estresse, capaz de representar a fração livre (biologicamente ativa) deste hormônio na circulação sanguínea (11), este corresponde de 5-10% dos níveis séricos (12) e não sofre interferências pela globulina ligadora de glicocorticóides (CBG) (11). A avaliação de cortisol na saliva é, então, uma ferramenta poderosa para investigação da função do eixo HPA no envelhecimento. Foram realizadas coletas de três amostras de saliva, realizada com ajuda de rolos de algodão no dia experimental as 9, 12 e 22 horas. No laboratório, as amostras foram centrifugadas e congeladas a -20°C. Amostras de cortisol salivares foram realizadas por radioimunoensaio (RIA, DPC Medlab) A sensibilidade do ensaio era de 0,1 nM/l e os coeficientes intra e interensaios apresentaram uma variação menor que 10%. Os resultados estão expressos em nmol/L. Isolamento das células mononucleares
Vinte mililitros de sangue periférico foram coletados pela manhã
(entre 9 – 10h) em tubos heparinizados. As células mononucleares
do sangue periférico (PBMCs) foram isoladas através de centrifugação
(900 g, 30 min) sob um gradiente de Ficoll-Hypaque (Sigma). As células
foram contadas por microscopia (100 x) e viabilidade celular foi avaliada
por critérios de exclusão com azul de trypan (Sigma) e estimada
em torno de 95% de viabilidade. As PBMCs foram cultivadas numa concentração final de 1,5 x105 células/ml em meio de cultura completo (RPMI-1640, com gentamicina 0.5%, glutamina 1%, hepes 1%, e soro fetal bovino 10%, Sigma) por 96 h a 37°C em atmosfera de 5% de CO2. As PBMCs foram estimuladas com fitohemaglutinina (PHA, Gibco) concentrações de 0,5, 1,0 e 2,0% em triplicatas (100 µl/poço) Para avaliar a sensibilidade a glicocorticóides in vitro, 10-9 a 10-4 M de dexametasona ou cortisol foram adicionadas em duplicatas (50 µl/poço; Sigma) nas culturas de linfócitos estimuladas por PHA 1%. A proliferação foi estimada através do ensaio colorimétrico modificado (13) que utiliza o sal de tetrazólio (MTT) que possibilita correlacionar a absorbância com a quantidade de células viáveis. Nas últimas quatro horas de cultura, MTT é adicionado nas culturas de células e após a incubação, os cristais formados foram solubilizados pela adição de dimetil-sulfóxido (DMSO). As absorbâncias foram lidas em leitor de placas de ELISA. Análise estatística
Todas as variáveis foram testadas para normalidade de distribuição
por meio do teste de Kolmogorov-Smirnov. Os dados de proliferação
e análise de cortisol foram analisados pela análise de variância
(ANOVA) para medidas repetidas que incluiu o grupo (idosos vs. jovens)
e as concentrações de mitógeno, glicocorticóides
ou cortisol. Comparações múltiplas entre as médias
significativas foram checadas através do teste de Bonferroni. As
diferenças entre as variáveis também foram avaliadas
pelo teste t. As diferenças entre as proporções dos
grupos foram avaliadas pelo teste de x2. Os resultados são expressos
como média ± SE em todas as figuras e tabelas. Descrição da população e avaliação psicológica
A Tabela 1 lista os dados demográficos e resultados da avaliação
psicológica dos indivíduos. A maioria dos idosos e dos jovens
adultos era Caucasiana. A relação entre homens e mulheres
não diferiu significativamente entre idosos e jovens. Nós
observamos que os idosos apresentavam escores mais altos para depressão
(p = 0,005), ansiedade (p = 0,001) e estresse (p = 0,001) que os adultos
jovens (Tabela 1). Além disso, a maioria dos idosos (76.1%) apresentou
mais sintomas de estresse quando comparados com jovens (27.3%), p <
0,0001. Estes dados sugerem que os idosos estritamente saudáveis
estão significativamente estressados. Tabela 1. Características gerais da amostra
e avaliação psicológica.
Escores
de estresse: Q1 = últimas 24h, Q2 = última semana
e Q3 = último mês.
Nós avaliamos a função do eixo HPA através
de coletas múltiplas de saliva. Ambos grupos apresentaram uma variação
circadiana normal, com um pico de cortisol pela manhã e um nadir
à noite (Figura 1). Verificou-se que os níveis de cortisol
salivar eram significativamente elevados nos idosos quando comparados
aos jovens adultos, F(1,71) = 5,04, p = 0,02. Estes dados sugerem que
envelhecimento saudável seja associado com uma ativação
significativa do eixo de HPA.
A proliferação celular induzida por mitógenos foi
avaliada como um índice de imunidade celular não específica.
O teste ANOVA para medidas repetidas revelou que nos idosos tiveram uma
proliferação celular significativamente mais baixa que os
jovens, F(1,68) = 14.82, p < 0,0001 (Figura 2).
Devido às evidências que, durante exposição
crônica a glicocorticóides, os linfócitos ficam resistentes
aos efeitos imunossupressivos dos esteróides (14,15,16) nós
examinamos sensibilidade dos linfócitos a glicocorticóides
em idosos e jovens adultos. A DEX e cortisol produziram uma supressão
dose-dependente significativa na proliferação de linfócitos
(Figura 3), p < 0,0001. Estes dados enfatizam a eficácia destes
esteróides na supressão da proliferação celular
in vitro. Nós observamos ainda que os linfócitos dos idosos
eram menos sensíveis para o tratamento de GC in vitro comparados
aos linfócitos dos jovens adultos. Em particular, foi observado
que os linfócitos dos idosos exigiram concentrações
de DEX mais altas suprimir proliferação com PHA do que linfócitos
dos jovens, F(1,72) = 8,19, p = 0,006. Embora tratamento com cortisol
produziu um efeito semelhante, não foram observadas diferenças
estatisticamente significativas, F(1,66) = 1,64, p = 0,20. Além disso, analisamos se o estresse no envelhecimento poderia alterar a resposta de proliferação bem como sensibilidade a GCs. Análises ANOVA multivariadas produziram uma interação significativa entre o grupo e estresse, F(1,69) = 6,61, p = 0,01. Em particular, foi constatado que os linfócitos dos idosos sem sintomas de estresse são mais resistentes a DEX que os idosos com estresse ou jovens sem estresse (Figura 4). Nenhuma interação significativa foi observada para a proliferação induzida por PHA ou sensibilidade a cortisol.
O envelhecimento está associado com várias doenças imunes, inclusive neoplasias, doenças auto-imunes e infecciosas. Porém, esta a susceptibilidade não é distribuída uniformemente em populações de idosos, o que representa a possível influência de outros fatores imunomoduladores. Neste estudo, analisamos o papel de fatores psicológicos e endócrinos na regulação da imunidade celular nos idosos. Para controlar para as doenças relacionadas à idade pudesse, foram recrutados indivíduos estritamente saudáveis através do protocolo SENIEUR (7), que estabelece critérios rigorosos para seleção de indivíduos estritamente saudáveis. Apesar de serem estritamente saudáveis, os idosos estavam significativamente mais estressados, deprimidos e ansiosos que os jovens adultos. Contudo é importante salientar, que os idosos não apresentavam subjetivamente sintomas de depressão clínica ou estresse crônico. Todos são idosos não institucionalizados e os indivíduos socialmente ativos na comunidade. Apesar de alguns estudos considerem que mudanças as psicológicas relacionadas a idade controvertida e outros ainda não observaram tais mudanças (6), é provável que, tais evidências podem estarem relacionados à falhas metodológicas, uma vez que não são exigidos instrumentos clínicos específicos para avaliar a depressão no idoso. Por exemplo, muitos dos idosos não relatam sintomas de tristeza e fadiga claramente e tendem a omitir seus sentimentos para agir mais defensivamente as perguntas que podem constituir uma ameaça a sua auto-estima (17). Paralelamente as mudanças psicológicas, nós observamos que os idosos apresentavam aumento dos níveis de cortisol salivar ao longo do dia. Estes dados apóiam estudos prévios (18) e sugerem que o envelhecimento humano está associado a uma hiperativação do eixo de HPA. Essa alteração neuroendócrina pode ser devida a alguns problemas do controle do eixo central, como uma diminuição do número de neurônios no hipotálamo e hipocampo, implicando numa redução nos receptores de glicocorticóides e uma diminuição na capacidade de regulação do eixo HPA (19). Em outro estudo, nós demonstramos que idosos cronicamente estressados apresentavam níveis aumentados de cortisol salivar quando comparados com idosos não estressados (16), e no presente estudo, nós evidenciamos que em idosos saudáveis, os escores aumentados para depressão, ansiedade e estresse estão correlacionados positivamente o aumento dos níveis de cortisol salivar. Estes resultados corroboram também estudos que observaram uma hiperativação do eixo de HPA na depressão clínica (20). Estes dados sugerem que fatores psicológicos podem ser implicados na ativação do eixo HPA no envelhecimento saudável.
De acordo com outros estudos (21), nós também verificamos
que os idosos apresentaram uma redução significativa (~30%)
da proliferação celular estimulada por mitógenos
comparados aos jovens adultos. A diminuição da proliferação
celular é uma mudança relacionada à idade que foi
já observada em diferentes espécies. Esta diminuição
pode contribuir para uma resposta imune pobre contra novos antígenos
e estar associada com o aumento de morbidade e mortalidade no idoso. Esta
mudança celular pode estar relacionada a vários mecanismos
subjacentes, incluindo a involução tímica, alterações
nas citocinas, função diminuída das células
apresentadoras de antígenos e da senescência replicativa
(2). Gostaríamos de agradecer o excelente apoio técnico da Sra. Ingrid Manfredi (Escritório para Cuidado Social, Gravataí). Nós agradecemos para a prefeitura de Gravataí fornecer a infraestrutura para o recrutamento e transporte dos idosos. Ainda, gostaríamos também de agradecer a DPC-Medlab (São Paulo, Brasil) pelas doações dos kits e ao Dr Luiz Glock pelo apoio estatístico. Este estudo foi financiado pela FAPERGS (#00/0168- 9, M.E.B.) e CNPq (#551180/01-3, M.E.B.). REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS |